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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Pois, também me parece...

Não sei se a idade começa a fazer de mim um moralista, se nestes casos a desidentificação me leva a percorrer o caminho confrontativo, se me intimida saber que pelas costas alheias meço as minhas ou se, por e simplesmente não me assiste cultivar as agruras de tal inferno, mas o facto é que hoje me faz sentido dizê-lo.

Também é certo que ao fazê-lo, se por um lado me aproximo do que critico, por outro lembro o quanto tal me agasta e por conseguinte evito; digo:

Pessoas que nas suas conversas tendem a despender mais tempo a falar dos outros, das suas vidas ou a tentar controlá-las, do que a acrescentar valor à vida, em geral, espelham o desencontro com a felicidade. Parco ensinamento para as minhas aspirações. Fazem-no tentando esquivar-se do que não gostam em si e da dor provocada pelo olhar ao espelho as nossas feiuras. Daí, pela ignorância, merecerem o meu perdão e compaixão.

De igual modo, pondo terceiros na berlinda como se só de manjares lodosos se anafassem, auto iludindo-se, como constante, o que ambicionavam era poderem ostentar aquele tipo de imagem impoluta e incólume que prolifera nos contos de fada, mas a sua não posse corrói-lhes a consciência ao mesmo ritmo com que desenfreiam a língua.

Não sei se já alguma vez se tiveram no facto, mas se se lembrarem, quando por vezes essas pessoas nos concedem o privilégio de nos incluírem nas suas confissões sobre o jeito alheio, o que estão a fazer é a pedirem-nos perdão pelo que ou por quem são. Não lhes ocorre que ninguém a não sermos nós mesmos poderá perdoar culpas próprias. Quanto muito, aos outros, caberá aprovarem-nos ou reprovarem-nos actos ou formas de ser. Não é isso que fazem os outros; somente aprovarem-nos ou reprovarem-nos a integridade ou falta dela? Pois, também me parece. Da integridade, que é coisa complexa, quem sabe, a correr, fale um dia destes.

Mas adiante. De facto, este tipo de pessoas transporta um determinado tipo de pestilência e pobreza, a pior delas todas, da qual gostavam de se penitenciar, mas a insegurança provocada pelo confronto com a interiorização é tamanha que ao invés de se aventurarem no superá-lo cedo se desmoralizam pelo trabalho dado, razão pela qual a fofoca também lhes serve não só de paliativo como também para culpabilizar tudo pelos oportunos infortúnios. Destes, quando não eu mesmo, conheço-os mais do que desejaria.

As suas emoções e sentimentos usam ser um corolário de frustrações não idas além da fantasia, descompensando-os. Também por esse intuito motiva-os mais o exterior de si mesmos ou da envolvente do que o âmago e a completude das duas coisas. Admiram e invejam quem consegue realizar o equilíbrio destas duas parcelas do eu mas, nas suas bocas, preferencialmente, porque lhes assombra o pretenso poder, optam por descredibilizar quem o consegue. Ouvindo-os, quase acreditaremos estarmos na presença dum messias de café verdadeiramente conhecedor e fazedor dos segredos de estado. Rodeados por um ou dois discípulos do bairro fazem sempre por parecer terem muitos amigos, amigalhaços a quem tentam controlar a existência, somente para poderem ter com quem falar acerca dos que, de entre eles, num ou noutro dia, calha a sorte da maledicência.

Os que os acodem, um dia bestiais outro bestas, temendo perder os privilégios de sequita lutam permanentemente contra a exclusão por parte do venenoso, esquecendo-se de que aquilo que os caracteriza é o serem mero liquido dum cálice de fel. Se há lealdade nestas pessoas é exclusivamente para com o medo de serem elas as julgadas. Dai a tentativa de exercerem controle sobre o que a determinada altura se enfeita de “turba esfaimada”. Por isso me enfadam, por isso, mesmo há distancia, farejo-as, e delas, somente desejo distancia.

PBC

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A ignorancia dos nossos universitarios


Há já algum tempo que, nas minhas análises que a pouco mais me remetem do que ao sentimento de eventualmente me estar a tornar num extra-terrestre, quiçá a envelhecer e por consequência passar a fazer parte da brigada de costumes, dizia eu, há já algum tempo que venho chegando à brilhante conclusão de que, digo, facto consumado, Portugal tem vindo a gerar a um ritmo alucinante uma geração de imbecis certificados. E o que mais me preocupa é, a julgar pelas decisões do executivo no respeitante à cultura, tudo isso se passar com o aval e incentivo das mais altas instancias.

Não perderei aqui tempo a dissecar o que outros entretanto já dissecaram sobre esta matéria. Já me basta saber que quando no passado tinha uma ideia para produzir cultura, sim, porque sou dos que nasceram com a infelicidade de serem propensos a isso, se quisesse fazer uma exposição ou outra dessas tretas quaisquer, como por muitos dos nossos futuros decisores é designado, os incentivos, após bem esgrimidos argumentos, eram-me concedidos. Hoje, talvez por confrontar muitos com a panaceia de valores instituída, a coisa pia mais fininho, ou seja, nem pia.

Mas adiante. Veja-se por exemplo o estudo – em anexo - realizado pela “Sábado” sobre o grau de cultura geral das novas gerações, no qual nos podemos deliciar com verdadeiras odes à futura e já presente incúria desta nação. Pergunto-me sobre o que é que ocupa o lugar do conhecimento na mona desta gente e mais rápido do que a ligeireza com que os mesmos debitam impropérios sou levado a concluir que se não for serradura, alguma sigla mais em voga, o preço da caipirinha e do chote ou a cor das cuecas da Pamela Andersen lá do bairro, será mesmo é rarefeito ar. Talvez para não pagarem impostos. Eventualmente será assim que aprendem a poupar.

É certo que por vezes também me dou com pessoas que distinguirem entre uma vaca a defecar num prado e um Basquiat, um Rembrandt ou um Miro é o mesmo que tentarem discernir acerca da salubridade das águas do mar morto num dia de chuva. Mas esses, porque é assim que se funciona por cá, têm cunha junto da minha tolerância.

Mas pronto, o que fazer, se sou do tempo em que balbuciar um quarto que fosse de tamanhos impropérios era tido como sacrilégio, do tempo em que quando por exemplo se ia ao “Bairro Alto” era para, ao sabor dum etileno qualquer mais venenoso, viver, criticar e produzir a vanguarda. Hoje não, hoje, salvo algumas boas excepções, não sendo por questões eleitoralistas ou de simples socialização, ir ao “Bairro Alto” é nalgumas ruas tentar passar-se despercebido para não sermos identificados com a mesma estirpe de provectos defensores da imbecilidade avulsa, em nome dum pretensiosismo consumista e do querer fazer parte, já não se sabe bem do quê, a não ser do poder-se dizer nas redes sociais que se esteve ou vai.

E tudo isto, com honras de majestade sacerdotal por parte dum estado que prefere gerar absuntos que não questionam os seus fracassos e defraudanços conjecturais; porque um estado onde a imbecilidade se ri da própria ignorância é preferível a um estado em atenta observância.

PBC

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Pecado...

Bem sei que debelo a qualidade das minhas emoções e me afasto do Céu permitindo-me ao mau feitio e embirração mas, sob pena de ser definitivamente excomungado dos círculos doutrinários vigentes, Deus e os leitores permitam-me mais um dos meus pecados.

É que nunca cheguei a perceber o porquê de, por exemplo, toda a gente falar mal do Sócrates – não que eu fale melhor – quando tratando-se de certos outros indivíduos da praça com os quais temos que levar, emitir opinião é embarcar numa viagem pela origem do prurido opinativo.

Note-se que, assumidamente, sobre o que aqui me trás hoje, até sou dos que têm telhados de vidro. Mas que importa isso se nos dias que correm já detesto ter razão e contratar-me só o fazem os que me valorizam no talento e competência, não pelos meus olhos que, por sinal, tratando-se de trabalho, são de carneiro mal morto.

Mas adiante: Tive ontem uma acalorada conversa na qual uma lançada jornalista nacional equiparava a qualidade dos artigos de opinião do Ricardo Araújo Pereira à virtude dos produzidos pelo Fernando Alvim. Na minha humilde opinião, igualar o primeiro ao segundo é como tecer elogios igualitários à capela dos Jerónimos e à igreja da Medrosa. Note-se que, a segunda, embora bem frequentada mais parece um escarro cuspido pela flatulência de um mestre de obras amigo do bispo local.

Continuando. Ainda me pergunto se, para elegia de alguns, a minha amiga não consegue reconhecer a diferença abissal existente entre o saber-se vender fortemente a própria imagem e a legitima proclamação do talento? A diferença entre ensaiar o riso para cair oportunamente nos ciclos sociais em voga e o rir genuinamente nem que seja da estupidez alheia? Em boa verdade, quando solicitado a opinar, um limita-se a seguir aos sss numa gloriosa tentativa de evitar futuras barreiras sociais, ou seja, cobra pela opinião a opinião que não emite e o povinho aplaude por não se sentir confrontado, enquanto o outro, a quem muitos gostariam de poder pagar para que deixasse de a emitir com tanto garbo, a escancara, sendo aplaudido na mesma por dizer o que na nossa cobardia raramente temos colhões para verbalizar publicamente. E não é por isso que tem os bolsos mais vazios, pelo contrario.

Ainda dentro dos parâmetros da minha parca opinião, que a pouco mais do que à ponta dos meus dedos chega e pela minha pequenez me coloca a cabeça a prémio, aquilo a que tenho assistido é: No caso do primeiro, as hostes fazem vigílias aguardando a próxima aparição, ao invés de, como acontece no segundo caso, os desbocados soltarem um inconsciente “epá, mas temos que levar com este outra vez?”. E olhem que, apesar de papar com tudo, o povo também sabe.

Por bem existe espaço para tudo e para todos, se não existissem os ditos “picha mole” os com tesão nunca sobressairiam, e sobre gostos, politica e religião é de bom tom não se discutir, porque, tal como eu, ao fazê-lo, peca-se.

Confesso que até já tentei dar o benefício da dúvida ao FA, mas tal como evidenciado por comparação nos links coloridos o que me acontece é ler um artigo dele e ficar com a sensação de que, sem acrescentar valor cívico, político, ou cultural ao discurso, fala, fala, fala numa prosápia estéril, pretendendo-se piadético, não indo além do politicamente correcto e, sem dizer nada, acaba por rematar o discurso com um arrepiante esgar de falsa ingenuidade. Acerca do RAP, digam-me vocês.

Mas será que só eu é que vejo as coisas assim, que se perguntasse a um adolescente o motivo do sucesso do FA ele, abanando a mão à frente dos olhos me atiraria com um “deahhea”?

É que já me enfada esta história de, após tempos vencidos, ter que continuar a perguntar: E então, o maluco era eu, hem ?

Se me disserem o que é que o FA quer dizer com isto, talvez mude de opinião:

“...Daí que olhando para trás, é isto que vos posso dizer, mas se olhar para baixo, fixamente nos pés, são as sapatilhas Sanjo que me lembro…””…porque só elas me faziam fazer golos iguais aos do Nené, camisola número 7, eu mesmo nas costas, ali ia Nandinho com as suas Sanjo, rotinhas,…”

Não me melguem...

PBC

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Foto PBC

O que se segue, para além de estilística e tematicamente poder ser do seu desagrado, poderá também conter algumas gralhas e erros ortográficos ou semânticos, imperfeições que algum corrector de texto poderia eliminar, disfarçando assim tamanha dislexia em impoluta ortografia, pelo que, se acaso for dos que atenta nessas coisas, sugiro: Não avance mais. Continuar será desrespeitoso para mim e para si. Lê-lo, será sempre opção sua. Se avançar e chegar ao fim, apetecendo-lhe, leve o que quiser, mas faça-o em silêncio. E peço-lhe o favor, ao sair, no máximo, feche a porta. Faça do que levou o que melhor entender mas, sobre tudo, não devolva o que não lhe servir.

Não escrevo para outro alguém que não para mim mesmo. No fazê-lo, antes de aprovação ou entendimento alheio urge-me tão só o entender-me no sentir dos termos reverberando-me nas entranhas, na espacialização fonética dos significados e significantes passíveis de os cartografar terminologicamente e em concordância com a génese que em mim deles se alimenta.

Neste espaço ou outro dentro das paredes da minha casa jamais subjugarei a verdade da minha expressão escrita a formalismos que a remetam para o enclausuramento hermético de alguma torre de marfim, que não a pretendo perfeita mas exclusivamente sentida, que não a pretendo em lógica comum mas simplesmente intima, que não a creio para deleite ordinário mas mormente pessoal, que não a ambiciono do agrado geral mas arredada do momento, despida de tempo.

Que me enfadam sentenças ortograficamente imaculadas mas paridas sem alma, desenxabidas. Que as prefiro bastardas, porém, que a esta e só a esta pele se cravem, que me nascem egoístas. São-me como as musas. Por norma, em detrimento das estereotipadas encantam-me algumas fisicamente imperfeitas e, vá-se lá saber o porquê, ainda que a mais ninguém emocionem, aceleram-me o sangue.

Assim não fossem não eram minhas as minhas palavras. Teria eu outra identidade, essa que nem pela forma nem pelo conteúdo a/as amordaçará ou falseará na personalidade. Doer-me-ia enganá-las no jeito de me acontecerem, como se sendo coxo me doesse a exigência de não mancar ao correr além.

Se por tanto não as consentisse, não me serviriam, nem elas de mim.

Nem eu aqui assim.

PBC

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Moralismo?

Não consigo deixar de pensar nisto sem considerar que, no mínimo, andamos é quase todos a dormir. E porquê? Porque, de facto, é-nos mais fácil imputar culpas e responsabilidades a terceiros do que olhar-mos um pouco mais para nós mesmos. Quer dizer; olhar até olha-mos, mas sobre tudo para os nossos umbigos.

É assim, somos assim, preferimos apontar o dedos a direccioná-lo para nós. Falta-nos maturidade para saber-mos ser governados, não cair-mos nesta dose de histeria colectiva ao chegar o aperto. Sabê-lo dói, tanto quanto dói olhar-mos corajosamente ao espelho, tanto quanto nos desorienta e zanga o confronto com os nossos defeitos mais “envergonhadores”.

Já outras vezes me referi à crise, como sendo, em primeira instância, uma crise estrutural de valores, logo nas bases, e por mais que me tente esquivar desta premissa é-me difícil encontrar outra perspectiva.

Mas mais caricato ainda é sentirmo-nos impotentes quando o poder governamental é conferido pelo nosso sufrágio. Será que ao elegermos governos colocamo-los lá por não existirem alternativas ou porque o que a sua liderança eleitoralista nos induz é à fé de que poderemos continuar a perpetuar o escapismo e a adiar o intimo crescimento?

Em verdade, sem sequer parar-mos para entender ser impossível obter o melhor de todos os mundos, mantemos, no colectivo, e individualmente, padrões comportamentais promíscuos, vivendo numa perversão de valores. Mais confortável e não requer responsabilidade.

Também me pergunto se exigimos o que não oferecemos. E não incluo aqui aqueles indivíduos que fazem a excepção e o seu maior pecado é viverem no contra-corrente, engrossando a falange dos ditos ingénuos, sonhadores, otários, ou o que mais servir para lhes nomear a bonomia e a crença num mundo mais justo, pacifico, harmonioso e equilibrado.

Se entender-mos que antes de mais os governantes não fazem a identidade de uma nação mas exclusivamente representam-na, e que em concordância com a existência dum inconsciente colectivo espelham a identidade de quem os elege, sonhos, ambições, atitudes e desejos, neste capítulo, considerando o que é dito e sabido fazerem, atire a primeira pedra quem for ímpio.

Não defendo nem desculpabilizo os governantes e tão pouco os aspectos de injustiça social evidenciados com a sua concordância tal como não me considero exemplar mas, será que a distintos níveis não vivemos num pais onde proliferam os chicos espertos, os oportunistas, os gulosos, os chupistas, os obscurantistas, onde no medo de ser-mos ultrapassados não barramos caminhos a quem nos aponta as nossas limitações? Não temos na estrada o palco do nosso melhor retrato? Ou quanto a isso ainda residem dúvidas? Será que nas nossas vidas pessoais, no quotidiano, as nossas maiores batalhas não são afectas ao permitir terreno ao vizinho e parceiro do lado, e não se prendem com a aceitação da individualidade alheia, ou com o invejar-mos os que conquistam legitimamente o que por direito existencial e mérito lhes é cabido sem que frequentemente tentemos perspectivar formas de o usurpar? E gerimos as nossas vidas pessoais sem abrir espaço a crises? E o que as provoca saindo da nossa lavra? E jogos de poder, quem não os exerce nem que seja sobre o periquito? Pois, não me parece que por cá reinem assim tantos santos.

Já parámos para pensar que se temos casos em que lideramos as estatísticas internacionais, embora também exista o contrário, na sua maioria não são de orgulhar? E que muitas delas reflectem a sociedade civil?

Quero com isto dizer que de nada adianta reclamar contra o estado das coisas. Tão pouco me convencem de que a mudança terá que passar forçosamente pela mudança de regimes, que esses não nascem por geração espontânea. Creio acima de tudo numa mudança passando pelo mudarmo-mos a nós, para que as nossas escolhas governamentais sejam concordantes com o que, primeiramente, da nossa individualidade e depois no colectivo espelhamos.

E o consumismo? Puseram-nos a consumir desenfreadamente ou fomos nós a desejar ardentemente poder fazê-lo? O marketing tenta-nos e obrigam-nos a consumir, ou como forma de vencer vazios e frustrações pactuamos com o jogo da procura e oferta? Temos coragem para boicotar o excesso de oferta dizendo não ao que nos leva ao despesismo acima dos proveitos individuais mensais? Mandam na nossa determinação? Queremos e consumimos mais do que conseguimos pagar? Então, do que nos queixamos?

Somos humanos?, ou a gula, a inveja, a luxuria, a ira, a preguiça, a ganância e a vaidade são apanágio de alguma civilização alienígena?

Não conquistamos o mundo, subjugamos mais povos e escravizamos mais negros do que exterminou Hitler Judeus?

E esta nossa profunda sede e fome, donde vem? É-nos dada pelos governantes?

E os pecados, pagam-se no além ou "cá se fazem cá se pagam"?

Soa a moralismo não soa?

Ah pois é.

PBC

quarta-feira, 12 de maio de 2010


Não, não falo do sub-mundo ciber-espacial onde, agora, ultrapassada pelas redes sociais a pornografia atinge o seu apogeu e, o vicio solitário – sim, porque é sempre às escondidas que lá se vai; e não digam que não – retira ponta ao viver ao vivo e a cores, mas está na ordem do dia masturbarmo-nos em frente ao computador disfarçando de opinião e partilha de valores, doideiras , fantasias, tristezas ou até a exibição da gata da vizinha em férias nas Antilhas, a sexualidade reprimida disfarçando o mutismo e a solidão em legítimo autismo, que será o mesmo que dizer que é bem viver em duas frentes exteriorizando numa o que por vezes noutra se queda pela mera tentativa.

Benefício dos tempos modernos ou; numa espécie de instinto de sobrevivência em que a máquina como extensão da nossa pele reclama o seu papel no eco-sistema; legítima rebelião contra o individualismo e isolamento para o qual nos empurrou esta sociedade descaracterizada de valores que saciassem as nossas fomes mais profundas.

Mas o que quero mesmo referir é o facto de também ser moda ter um blogg e obliterar a causa da partilha de informação em infindos cortejares do próprio umbigo. E digo-o já sem saber se falo contra mim ou a meu favor, porque em boa verdade agrada-me a ideia de tentar globalizar o que me vai na alma nesta espécie de fecundação autista onde o sémen que daqui sai raras vezes produz petizes que valham a pena. É um facto. De qualquer forma não me consigo abster de analisar segundo a minha própria ordem de ideias esta coisa que para aí anda onde, - e friso que talvez seja só a minha implicância – por vezes mal distingo ter saído de um blogg e ter entrado noutro, tamanha é a semelhança temática, estilística, semântica, ou opinativa: Uma espécie de contra corrente produzindo a corrente do momento. Há de tudo, desde o – ò pra mim na Antárctida até ao - ò prá minha ideia sobre a ideia, sobre o Sócrates ou sobre os Led Zeplin, ou ainda, - Olha, curte lá esta.

É, assim se fode hoje em dia, e, quantas vezes, em última instância, o juízo aos outros. Mas é salutar - penso eu de que – exercitar a retórica umbilical neste pretenso aquiescer de relações extemporâneas com a actualidade, nem que seja para deixar uma indelével marca da nossa passagem pela vida, sem produzir-mos grande coisa, como é próprio da masturbação, zelando, a distintos níveis, pela qualidade do esperma e libido.

Nunca antes afagar o ego foi tão versátil, tão fácil ou possível, nem alcançou ilusoriamente tamanha distinção. Sei lá, acho mesmo que nunca antes se produziu tanto ruído em torno do que quer que fosse, levando-nos ao esquecimento da boa nostalgia de contemplar os enchidos no fumeiro. Enche-se por se encher sobre uma capa de intelectualização, cultura e mundanismo, que, em boa fé, assim se torna, numa cultura de janela aberta apensa a novas maleitas, viroses, e outras oses que tais.

Em fim, vive-se a masturbação sem preconceitos, e com o preceito de se ser para o olhar alheio antes de mais nada, desfrutando de um poder pretendido como descentralizado, mas, também aqui, viciado.

E por aqui me fico, pois, de tanto gostar de me ouvir a mim próprio, esta coisa pode tornar-se patológica.

PBC

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Arte Povera



Arte Poveraem português Arte Pobre – não é o enquanto apaixonado sufocar na ausência, nem é a difícil arte de teatralizar uma compostura digna ao olhar para uma montra com 147.000 € de Porche Caene quando se é obrigado a repensar valores para qualquer casa idealizada. Tão pouco ditará ser dos pobres a sua prática. Pelo contrário, enriquecem os que melhor lhe dão forma.

Quantos, ao me verem empilhar e associar o que me caia nas mãos me disseram estar a fazer a dita sem que na minha ignorância imaginasse ao que se referiam? Pobre de mim que nunca vislumbrou que no irrequieto e inevitável educar do olhar explorando regras de composição e espacialização de emoções reciclando tralhas, trastes e restos para encontra neles novos elementos pictóricos, quando o faço sem pretensão de maior que não seja olhá-las e pronto, faço Arte Povera. Só que ao contrário dos que ousam torná-la quase eterna, o mais que faço é curtir-me nelas, destruí-las após conseguidas, por vezes fotografá-las, ou deixá-las desmoronarem naturalmente. Dai chamá-las de instalações efémeras. Quem na fugaz existência desse meu íntimo festejo da forma alegórica as viu, viu, e quem não viu não viu. Tanto faz terem dois metros ou dois centímetros, são o que são, o tudo esconder a continuidade da forma para além da sua descrição imediata, e tudo ter uma relação extemporânea, pluridemiensional e simbiótica com a impermanência no olhar que as capta e reconhece antes dos pormenores que lhe dão corpo e depois do corpo que lhes reinventa os pormenores.

Lembro a primeira vez, o Inverno de há mais de vinte atrás, eu e a nortada por companhia, na praia da Galé, recolhendo a refrega dada à costa, troncos, cordas, pedras, garrafas e sacos de plástico e um sem fim de dejectos reclamando breve e nova identidade na continuidade dos ciclos materiais. Finda uma semana, erigira ao longo de toda a praia dezassete aspectos de privada relação metafórica com o planeta em imponentes esculturas de lixo. Além de umas quantas gaivotas, da areia, dos seixos e do vento, gosto de pensar que só outro doido as viu, alguém que esteve na eminência de ser amarrado a um dos troncos e, como tendo igualmente dado à costa, quase se tornou no elemento humano em falta: Um norte-americano, conhecido realizador de cinema que zarpara de casa, fugido da mulher, e que decidiu colocar a caravana mesmo no eixo da foto que, para registo, impunha-se-me. Qual desenterrado tresloucado, andrajoso, de melenas escorridas e oleosas, assanhado por todo o vinho que conseguira beber, acorreu para mim de punho em riste, pretendendo ser eu um paparazi pago pela esposa que, dizia, lhe infernizava o juízo. Feitas as apresentações e apaziguados os ânimos passou-se ao convívio e a uma longa tarde de prosápia na qual me garantia que para além de eu ter que vir a conhecer o Roman Polansky pela mão dele, deveria pirar-me também eu para as terras do tio Sam, pois lá, sim, aquelas aritméticas de tempo-forma-emoção-espaço, seriam valorizadas. Claro que não só não me convenceu a largar a minha pobreza como quem na manhã seguinte tinha sido arrastado pela maré junto com as esculturas tinha sido ele. Aliás, deste foragidos às amantes vieram-me mais, bem ao género de “arte povera”, como quando o primeiro baterista dos Gun’s & Roses, mais parecendo um tronco estilhaçado pela intempérie, envolto em farrapos, apareceu-me pela frente a dizer que a namorada lhe cancelara as contas e todos os cartões simplesmente para conseguir seguir-lhe o rasto. Tive dificuldade em acreditar que semelhante personagem fosse quem era, pelo que, por precaução, porque já antes me inteirara do traiçoeiro valor das aparências, não fosse perder o motivo, fotografei-o e pedi-lhe um autógrafo que guardo religiosamente num qualquer álbum esquecido naquele imenso relicário de memórias coleccionadas que permanece em casa da mãe para justificar o pretexto de considerar que enquanto poder remexer nas lembranças arrumadas poderei voltar sempre. Só acreditei no pobre no dia seguinte, quando o vi passar de braço dado com aquelas imensas pernas loiras lindas de morrer. Ela uma estampa, ele um hino à Arte Povera.

Outro hino à Arte Povera vivi-o no dia em que, na Basileia, numa vernissage da Chopard acabei fotografado ao lado dos 750.000 € de gargantilha exposta no pescoço da actual primeira-dama de França, e a fotografar a Naomi. Também aí, porque estando eu pacatamente a comer a minha lagosta, como se não houvesse ninguém mais interessante e menos pobre na festa, a maré trouxe para a minha pequeníssima mesa nada mais nada menos do que o anfitrião. Povero de mim que a partir daí me senti um objecto transformado em relíquia para juntar àquela composição ou performance que mal cheguei a compreender.

Entendo agora que o mar não só trás como leva e assim leva como devolve. Daí mal expor as minhas instalações efémeras. Ainda acreditei não o fazer por via de também ter passado umas férias a construir o que quando me preparava para o emoldurar, distraindo-me, alguém o colocou no lixo por pensar que o era, não imaginando que é no reciclar do lixo que me habita que me “cristalinizo”. Foi o que senti em Serralves ao desembocar numa exposição de Robert Rauschenberg, sobe o título de “Em viagem”. O que dele vi - pop art - lebra-me trabalhos de arte povera.

Agora diz-me: o que é Arte Povera; é o sufoco do labiríntico amar, sou eu que não quer expor/me/te, ou é criar com tudo o que tudo pode ainda ser e talvez nunca venha a ser para além do olhar?

PBC

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Eu ministro!


Sonhei ter sido incumbido de escrever um livro que deveria ter por título:

“Directamente da ardósia para o Magalhães e do Magalhães para o Matusalém”, uma espécie de Prozé dos computadores.

Para quem não sabe ou não se lembra, o ProZé foi o “mata velhos” que proliferou por esse Portugal afora nos anos setenta, e, ao contrário do Magalhães, todo ele fabricado em Portugal. Há mesmo quem diga que a origem do termo “mata velhos” provém do facto do Prozé ter sido uma carripana tão insegura que os seus condutores tombavam que nem tordos, facto que gerou repulsa pelo dito, e por consequência, levou o projecto à falência.

No meu sonho, uma vez que o Magalhães, para além do nome, de português pouco tem, o Matusalém utilizaria exclusivamente tecnologia portuguesa, pelo que fazia todo o sentido atribuir-lhe o nome de um personagem estrangeiro, e para lhe conferir mais respeitabilidade, bíblico. Seria o computador que, para equilíbrio das coisas, o Sócrates, no seu louvável plano tecnológico para o ensino, alfabetização e culturização da nação, passaria a oferecer aos idosos com vista a fazê-los abandonar os bancos de jardim e a levá-los a encontrar uma ocupação mais rentável. Em vez de andarem ali ao jogo da sueca e do dominó passariam a jogar em casinos on-line. Com esta estratégia, uma vez que estava convicto de que os nossos velhotes virariam verdadeiras feras da jogatina passando à auto-suficiência financeira, o Eng. acreditava poder ser possível retirar-lhes a pensão, fazendo assim encaixar mais uns cobres para suportar o plano de desenvolvimento tecnológico do país. Por outro lado, ao banir com os velhos das alamedas e lugares públicos arranjaria espaço para mais estacionamento nas cidades. Seria a chamada estratégia H&S Três em um, ou seja: Retirava-os da cabeça, sacudiria os ombros, e esfregaria as mãos de contente.

O Matusalém teria também o benefício de conceder não só mais saúde aos que o utilizassem como acabaria com o isolamento individual dos cidadãos da terceira idade. Era uma ideia de génio que, se acaso o nosso primeiro-ministro passasse por aqui, a pás nas tantas decalcaria, e claro está, uma vez que tem direitos de autor, não sem antes me convidar para ministro dos assuntos educacionais.

Seria belo; hem? Eu ministro.

PBC

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Seca...

Foto PBC


Daria para um filme, mas não é, a vida na qual, qual personagem onde a película suporta meramente a impossibilidade de conter o real, sou, e aos olhos de mais ninguém, o actor principal.

Talvez porque goste de escrever as possíveis formas do que nada mais existe para inventar, sucedem-se loquazes, tantos os episódios quantos os que não me lembro de ter encontrado em nenhuma estante de livraria.

Esbugalham-se-me os olhos, incrédulos, na convivência com certos protagonistas. Digo mesmo: Continua a surpreender-me a estupidez alheia. Corrijo: A pequenez das apreciações cinzeladas pelos juízos diminuídos. Bem, mas deixemo-nos de prosápia ou académica e petulante facúndia.

Sim, sou arrogante, vaidoso, e retorcido na busca da retórica; ou seja; sou rebuscado, como os episódios desta novela melodramática. Dizia, foi aqui há tempos, mais uma. Seca, poderia dizer quem chegou até esta parte do texto, seca digo eu, ter que - claro que não digo - agradecer o intimo coleccionar de cenas cimentando a vivência.

Também, quem é que disse para leres o que escrevo?

Continuando: Quando ando por casa enjorco o conforto dos trapos velhos e puídos, única indumentária condizente com o ar de desenterrado que, porque arredado do sol, enterro-me nas teclas do computador. Daí que sempre que contrafeito de lá saio, não o bicho-do-mato mas o esquálido ET emerge comigo.

Depois, a barba. A barba não, não a corto. Gosto de ouvi-la ranger à batuta do sono pesado; e tanto, claro está, tem lauto preço numa sociedade movida pelo preconceito, pela ilusão da aparência, para não me esticar aqui numa ladainha desconsolada. Acho mesmo que nesses dias, se não ladrão, pelo menos pareço um bandido, porque não vesti nenhuma das camisas da BOSS, ou, em vez de me locomover no meu MG descapotável, chego a pé. A mais, o supermercado vive só a cinquenta metros de casa e algumas roupas mais novas do que as vestidas nesses dias tinha-as oferecido ao habitual mendigo lá da porta, um dos meus vários protegidos. Acham-me pai deles.

Em fim, adiante. Talvez por isso, pelo pecado de em tranquila consciência me estar cagar para olhares desdenhosos, entrei, levantei uns trocados, averiguei se o que precisava existia, e como não, com a mesma pressa com que avancei entrada a fora saí, não sem antes ter esgrimidos olhares com o policia. Um tipo de olhar virulento, daqueles olhares que nos contagiam com uma desconhecida culpa, que não temos.

Pé na rua:

- Olhe o Sr.!

– Sim, diga.

- Por acaso não se esqueceu de pagar nada?

- Quem;eu?! Porquê? Não, não me esqueci.

– Tem a certeza?

- Tenho. Quer-me revistar?

– Que coisa azul é essa que tem aí no bolso?

– Ah, isto. Olhe, quer ver? É o meu maço de SG Filtro, vazio por sinal. É crime?

– Ahhhhh…

- Veio atrás de mim por causa da minha roupa? Sabe que as aparências iludem.

- Não, desculpe. Tem razão.

– Não te de quê. Mas olhe, das vezes que fui roubado, foi…

- Eu sei, por gajos de gravata.

- Eeexacto!

Ah, ali foi a minha vez. Descasquei em cima do… talvez sonhador, dos que sonha prender, não importa o quê ou quem.

Eu disse que sou arrogante; não disse? Pois, descasquei, e voltei a descascar a resenha de bons costumes arredados das forças policiais, prepotentes na expiação das frustrações escolhidas no dia em que decidiram fazer-se de estátuas ajuizando suposições. E blá blá blá, blá blá blá…

E agora, desabafo despachado, já sinto inspiração para começar novo guião. É verdade, já me esquecia, voltei atrás, ao polícia, e perante o seu olhar estupefacto agradeci-lhe a inspiração. Bem a calhar por sinal, ofereceu mais uma cena à próxima narrativa.

Não filme que seja a minha vida, daria uma tragicomédia…

PBC

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Não digam a ninguém...



E não, não é anedota. Antes o fosse.

Só eu sei que o que começou por se manifestar como pensamento mais rápido do que a sombra da demência se transformou em dor.


Tudo começou num belo dia, naquele em que pela primeira vez me defrontei – e digo defrontei porque se tratou duma batalha de quase vida ou morte no manicómio - com as insígnias do então BBV; vulgo Banco Bilbao Viscaia. Esperto que sou, assim que passo os olhos pela dita de imediato penso: Bumbeiros Buluntário da Várzea.

E não é que daí em diante, essa parasitária nomenclatura se me colou à testa e, por se ter tornado tão insuportável associar uma ao outro que já tremia nas imediações daquela mescla de azuis dei por mim a evitar olhar para os passeios?, e só passados quase dois anos de martírio consegui por fim engendrar ferramentas para formatar o disco e banir com o suplicio. Quanto mais lutava com a inverosímil tragicomédia mais ela se manifestava no meu velocíssimo pensamento. Pois é, pois é, sorte é que nunca lá abri conta pois pelo andar da carruagem, em vez de Bumbeiros B. da Várzea ainda acabava os meus dias a tentar escapar à emenda do soneto, ou seja, não disparar de imediato um achincalhante Burro Bem Vestido, ou pioríssimo, Bolsos Bem Vazios. E se os bolsos estivessem vazios porquê que haveria de lá ir ? Alguém me diz?

É para verem esta mente e que, se acaso a coisa se prolongasse, aí é que pela certa me veriam desvairado e a correr por essas ruas afora de cabelos em pé e à procura de um vão de escada qualquer para me esconder deles. De quem? Dos marcianos disfarçados de árvore, ora.

Ah, a propósito; chiuu, não digam a ninguém; eles andam aí.

PBC

Apetece-me...


Apetece-me dizer, mas de muito que é não sei o quê, nasce e morre como vão. Ocorre-me as pulgas da minha gata, que a dor tem estatuto social, que as guerras se alimentam com o esquecimento de quem as sofre, dizer o “abutrio” da imprensa elevando o banal ao estatuto de anormalidade consumida para iludir o fardo de não se ter, e dizer da morte de alguns sobrelevando-se em colectiva histeria acima das tantas e ilustres que ocorrem anonimamente a par de quantas nunca chegaram a mísero cromo de obituário; sei lá: Apetece-me falar da correlação da poluição com sistemas económicos, da queda do muro de Berlim por debelação do Armaguedão, da extinção de espécies ao ritmo com que se devoram florestas e se anafam outrora libertadores. E porquê? Porque me sufoca este apetecer de…

Mas como me apetece, como me apetece dizer acerca de tudo o que não cabe em nada do que parece importar para se fazer parte de uma humanidade esquecida que é, do papel da vida. Dizer, simplesmente dizer, e soa-me inútil que o meu pensamento se conduza ao mero esfumar da importância do que importa, e no fim, as palavras se prontifiquem a pouco mais do que à surdez da minha gata para a problemática das pulgas, ou da sua memória de escassos minutos…

PBC