segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A lutar sim, mas não esquecido do que fomento.


Poucas coisas são mais dolorosas do que, ao olharmo-nos ao espelho, o profundo confronto com o próprio reflexo.

E embora não aprove nem esteja de acordo quer com as patranhas quer com a incompetência e defesa de interesses obscuros manifesta pelos governantes deste país, dos que nos vendem em benefício dos seus próprio interesses e dos que secretamente os acobertam somente para preservarem posições de privilégio na cadeia alimentar, parece-me a mim estarmos somente a colher o que enquanto sociedade civil temos vastamente vindo a semear por via dos nossos comportamentos e alheamento dos valores em falência, paralelos à situação financeira.

Não, não sou dos que apoia ou concorda com esta cambada de governantes que me desfeiam o televisor. Muito pelo contrario, estou farto, mas não somente das suas politicas maquiavélicas, experimentais e beligerantes no âmbito macroeconómico. Acima de tudo estou farto dos séquitos que rodeiam a nossa classe de poderes. Farto de viver num país de gente incapaz de olhar com racionalidade e justiça para os seus pares, para os que mal se manifestam e para aqueles que na maior parte das vezes são uma afronta à imbecilidade, à futilidade, à pobreza de valores, à vivência duma imagem não correspondente ao possível, hoje largamente instituída entre os cidadãos portugueses. E não me refiro exclusivamente a políticos e chefias institucionais, mas a muitos mais do que os que gostava de saber existirem por cá. 

Não sei se sou só eu a ter este sentimento opinativo mas é lógico que o reflexo da atitude vigente na maioria da população com expressão modeladora das regras do jogo seja o sermos governados por incompetentes, arrogantes, defraudores e figuras lacaias do compadrio financeiro e estatutário.

Chega-se finalmente à conclusão de que se impõe agora uma verdadeira e urgente mudança em Portugal, que digo ser, não simplesmente das medidas governativas. Antes e sim, a par destas, uma mudança estrutural no pensamento, na atitude e na mentalidade dos portugueses, este povo facilitista esquecido da civilidade, complacente e arrogante, esfomeado de posse, ostentação e plástico poder circunscrito a compadrios, que dá vivas à mediocridade levando os medíocres a pensarem serem melhores do que o são e, por consequência, a fazer-se proliferar o que lhe dá sustentabilidade. Um povo que se compadece com o obscurantismo e que faz assentar a ordem das coisas numa cultura de laxismo e chico espertice. Um povo que com o passar do tempo, nos mais variados quadrantes da vida, tem vindo a premiar e a contemplar num crescendo a incompetência, em desproveito da competência, da racionalidade social e individual. Insensível ao que é a verdadeira socialização e ao vizinho mais próximo. No fundo, um povo promíscuo que, como forma de se abster da honesta apreciação de si mesmo, antes de fazer uma auto avaliação tende ao julgamento da promiscuidade por ele eleita. Será que não somos uma amálgama de gente que antes sequer de haver leite nas tetas da vaca, assim que nos é dito haver uma remota hipótese de o podermos sugar não começamos logo a extorquir a teta nem que vaca esteja moribunda? Acho sermos. Acaso entre nós meritocracia não é um palavrão mais obsceno do que qualquer vernáculo? E na estrada, não temos sempre a pretensão da minha ser maior do que a tua? E aonde tem levado isso? Esqueceram-se?

De facto, se entendermos que os nossos governantes eleitos democraticamente, tanto quanto manifestarem a maioria duma vontade, acima de tudo reflectem os desejos individuais dessa mesma maioria, não é vão considerarmos termos no poder aquilo que pedimos e o que merecemos.

Entedia-me este apontar de dedo sem que cada um de nós faça antes uma prévia avaliação dos seus comportamentos enquanto indivíduos e cidadãos. Quantos votam tendo em conta o colectivo? Quantos bons retratos do Passos Coelho não existem entre nós? Quantos de nós, nos nossos bairros e empregos não somos frequentemente uma amostra dele? Tenho legitimidade para o dizer porque não só não votei no homem como conheço alguns bons sacanas banais que na maior parte das vezes agem somente para ludibriar e insuflar o ego, não se importando com o que ou quem atropelam pelo caminho exclusivamente para se sentirem alguém. E com aprovação dos que lhes circunscrevem os interesses. E porque não sou nem nunca fui subsidio dependente. E porque nunca pactuei nem consenti de boca fechada com panaceias nem sodomizações à minha pessoa só para ser visto ou ouvir dizer ser alguém de mais valias que não possuo. E porque não avanço pela cunha. Não, a mim não me apanham nessa.


Não que de momento não exista validade em alguma da revolta popular; é que cresci com o sentimento de acreditar ser ridículo e infantil a queixa sem legitimidade. Mais, não trás mudança que não seja para mais do mesmo. Por isso me intriga saber que mudanças procuramos antes de mudarmos em nós tudo o que espelhamos na raça dos nossos governante.

A lutar sim, mas não esquecido do que fomento.

PBC

terça-feira, 24 de julho de 2012

Uma classe suspendida.


É triste mas não serão os políticos nem os poderosos a acabar com o que resta de toda esta panaceia económica. Antes, porque estes unicamente se aproveitam da burrice alheia, será sim a testosterona da classe média gesticulando o desespero em arremedos de mediania e mediocridade e em ilusão tamanha que ainda julga possuir ou conquistar os seus pequenos troféus quando na realidade o mais que consegue possuir é a hipoteca da própria sombra, essa da qual foge mas deixa um rasto de frondosa estupidez alastrando tão visivelmente que, aí sim, qual acepipe deixa caminho aberto ao maquiavelismo dos poucos realmente poderosos. Afeita à miragem dum pecúlio que nunca chega, viciosa e viciada no consumo e na comparação com a galinha da vizinha é esta a classe que de sobrolho levantado e olhar por cima da pálpebra, em canto de cisne desasado e tentando a todo o custo camuflar a cólera ainda se agarra a pequenos poderes de vão de escada e quintal como se daí lhe adviesse a falsa superioridade com que em esgares perdulários defronta os semelhantes. E de pouco lhe vale os que nela marcam positivamente a excepção, simples arautos da excelência ou da esperança solidamente fundada, mas, porque também confrontadores com a pequinês e redundância de padrões a que se entregou, mau grado uma farta ostentação de penduricalhos de pechisbeque paliativo, para ocultar a vergonha, abafados. Reivindica respeito mas considera-o para tansos. Despreza-se na identidade e tenta passar pelo que não é. Ao contrário da classe baixa a quem o sorriso sacia a fome e da alta a quem este atesta a abastança, intimidada com a simpatia, constantemente sobressaltada pela desconfiança e sempre de trombas mede por elas o status. Lambuza-se e aliena-se em quimeras personificadas por prima-donas de divertimento ou em camaradagens de ocasião para acrescentar mais rostos ao rol dos que nunca estarão presentes quando forem necessários ou aos que haverão de calhar na berlinda dalgum dia para expurgar o azedume e a frustração. Uma classe suspendida na arrogância caduca e a rombas tábuas de salvação que, convença-se, não lhe permitirão não sucumbir a não ser que se reavalie a si mesma e aos princípios que lhe dão corpo. Porque os dos extremos; uns porque já nada têm a perder e se resignam à condição de párias do sistema e outros porque de facto imperam, podem e têm; esses não contam a favor da balança do que ainda há para sacar ou orquestrar. No meio, iludida e mais permeável a ser convencida pelos acenos de possessão atirados pelos mais possantes da cadeia alimentar, em vez de assumir o seu papel equilibrante esta classe média senil limita-se a arrogar a cagança com que exibe os óculos escuros na ponta do nariz e a ridícula presunção com que conduz os “Audi’s” raramente próprios. Não se olha de frente mas de soslaio como aos demais. Auto-deseducada pelos excessos da ganância é de facto esta categoria apegada a tudo o que se lhe engoda que se perderá levando com ela a ainda possível justiça de forças, deixará de existir e sem marcar pontos fará jogar o derradeiro declínio das classes e a combustão da dignidade dos que acreditam num mundo melhor. Porque se digladia entre ela em vez de apontar para onde ou para o que interessa: Os valores de equilíbrio com que merecer a dignificação da competente condição de humanos ou animais mais do que pensantes. Uns, os domadores, atiram com nacos de carne já podre e os outros, as feras, esgadanham-se e devoram-se nem que seja para ostentarem as sobras diante da alcateia. Já não há luta de classes mas luta no seio da própria classe, a que, deslumbrada pelo reflexo do usufruto, mal rosnando esterilmente a quem lhe atira com o bofe, entre uma refeição e outra abocanha os seus filhos e irmãos e oferece de mão beijada a própria extinção. E o pior é que na ignomínia dos seus mais pequenos gestos denota congratular-se de ser progenitora dum futuro penhorado para os vindouros.

PBC 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Sejam portugueses pá!


Não entendo. A sério que não entendo por que é que esses alunos com dificuldade em pagar as propinas da faculdade não se mostram á altura de merecerem o título de doutor. Como é que se pode confiar o futuro a gente tão pouco apta a discorrer sobre soluções de conquista e expansão se eles nem sequer são capazes de dar bom nome às fundações da nação? Como?! Alguém me diz?! Então mas os paizinhos deles não lhes ensinaram a ser bons portugueses e aonde assenta o orgulho nacional? Pelos vistos não. E é por isso que em vez de solicitarem aos reitores que lhes seja concedida a regra de Sócrates e ou de Relvas não; antes preferem queixarem-se das dificuldades. Se fossem bem ensinados já sabiam ser assim que diminuíam os custos dos estudos. Bastava mandarem uns bitates sobre a matéria via telefone ou estarem inscrito durante um ano na universidade e a coisa estava feita. Mas não. Optam pelo andarem ali a pavonearem-se de livro debaixo do braço, a comerem pão seco convencidos ser lagosta. Isso não é ser português. Português que é português anda de nariz empinado por cheirar caviar e até mesmo quando escorrega na merda dos sem abrigo cagada nas paragens de autocarro nos quais para entrarem fazem-no furando as bichas à cara podre.  Lusitano não se queixa. Desenrasca-se! Não é burro. Tem orgulho. Sabe escravizar. Não liga ao mérito que esse gajo é um tanso e o Cunha é amigo do peito. Sabe que a raça o que preza é o laxismo e que preocuparmo-nos em executar é coisa menos nobre. Se há sempre quem faça e quem vier atrás que feche a porta. Ora agora. Onde é que já se viu uma coisa destas; andarem feitos queixinhas. Se tivessem estudado alguma coisa de história viam logo que para se ser um bom tuga primeiro há que deixar o Afonso Henriques orgulhoso. Claro! Porque qualquer pequenino que se preze tem que ser velhaco dançarino, saber vender a mãe e dar a boca a todo o Papa com quem se cruze. A sério; se cabe na cabeça de alguém andarem para aí a lamentarem-se em vez de saberem envergar as cores da nação. Se não sabem ser dignos do país que têm não entendo o que é que estão cá a fazer. Deviam emigrar. Isso sim. Para a próxima vez, na próxima encarnação, quando lá às portas do céu o Sº. Pedro lhes perguntar onde querem nascer o melhor é dizerem que querem ser paridos na China ou no Malawi. Porque nós cá não precisamos de gente dessa com carácter mole. Ora agora, portugueses sem a noção de que o orgulho lusitano ajusta-se na bacanisse à mesa da tasca, na esperteza da Malveira, no bacalhau com alho, na palmada nas costas só para comer um sapo vivo. A sério que não entendo. É verdade, não entendo mesmo.  Se calhar achavam que bastava termos escravizado África e arredores, termos tido o Salazar, aperfeiçoado o astrolábio e ver os morangos com açúcar e já estava tudo bem. Não! Não é assim! Primeiro há que merecer a fama que tão bom nome nos dá. Sim, até porque ela não tem nada a haver com o Karma nem com a pequenez que interessa preservar. Realmente, não entendo, nem entendo ainda por que é que perco tempo entre gente assim, tão pouco expedita. Bem se vê que não percebem nada do porquê de, vivendo de diminutivos, sermos o único país do mundo onde há mais xicos do que Franciscos.

Sejam portugueses pá, e parem de se queixar!

PBC

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Pelo menos eu claudico e voçês não...


Seis e quarenta e cinco da manhã e o despertador toca depois duma noite em que a meio acordo aos berros. Não me perguntem o porquê mas o facto é que por vezes acontece. Talvez o susto de viver em Portugal. Levanto-me qual noctívago desorientado no próprio quarto, faço as devidas ablações matinais, preparo-me a custo para o subsequente e fico prestes a sair. Generosa e paternalisando-me, sem saber o quanto me irrita o sequer aludirem privarem-me da minha fantasia de independência, a Ana decide emprestar-me o carro dela. Menos mau. O dia soa a agraciado. Agradeço-lhe mas não sem alguma culpa por deixar o meu red califonircation car encostado como um pária desolado por não se exibir. Tenho a mania de atribuir aos carros a capacidade de nutrirem sentimentos por mim. A psiquiatria certamente tem uma explicação para isso mas o certo é que, maluco, não, não sou. Despedidas feitas lá sigo até que cerca de quatrocentos metros à frente me lembro de ter deixado o tabaco em casa. Retrocedo já inflamado pela adrenalina do stress, subo a escada a paço largo para não cochear, apanho os cigarros mas não encontro o isqueiro. Duas opções fazem-me hesitar entre ambas. O volume da caixa de fósforos da cozinha no bolso das calças a ludibriar a visão do meu falo ou o isqueiro electrónico e sonoro que o meu sogro me trouxe duma das viagens dele: Uma geringonça metálica com cara de leão e corpo e rabo de peixe que de cada vez que o abro, a título de ser o hino de Singapura, em concórdia com a chama, solta irritante, estridentemente e de forma roufenha um acicate aos pássaros do distrito todo. Opto por este preparando-me para a ambiguidade de sentimentos que desse momento em diante me desenhará o resto do dia. Há opções totalmente desprovidas de intenção e eu, quando se trata dos meus cigarros a acender faço tudo menos dar o recto ou pôr-me a jeito da autoridade. É verdade, há quem seja mais imbecil do que eu só por causa disto.

Porque continuo com a panca de tentar descobrir a vanguarda claro está que meia hora antes do marcado na convocatória da consulta, qual terceiro idadista à porta do supermercado, lá estou eu ao lado duns pensionistas aguardando a abertura das portas. 


Como na rua, por enquanto, por cá, ainda nos podemos escudar dos incómodos num cigarro, decido sacar dum e acende-lo com a geringonça asiática. Sempre que o abro ocorre-me de imediato a rua do Bem Formoso e os negócios da china que calés e monhês negrejam por lá. E pronto, já sabia, chega-me o tal sentir a nostalgia da diferença sucumbir à vergonha, a culpa por afrontar os pássaros, a certeza de que os souvenires asiáticos que tentam reproduzir as lendas não têm lugar no paraíso, e no dissimulado esgar o perverso prazer de quem já conquistou o direito a ser julgado por despautério moral e pelo fumar coadjuvado pela gratidão duma oferta. Os olhares dirigem-se estupefactos para mim, uns reprovadores, outros jocosos e outros ainda piedosos. Não entendo o porquê destes. Normalmente é nessa altura que exibo aquela cara entornando os óculos e o sorriso deslavado dos palermas tentando desculparem-se a quem não lhes oferece alternativa ao caso em julgamento. Tento o máximo de cagança ao repô-lo no bolso mas percebo-me volátil. Assumo o isqueiro e pronto. É meu, se não gostam comprem Bic’s e se querem um mandem-no vir. Porque o meu piroso é meu e só meu. Lume ainda vá, pode ser que dê, agora o isqueiro, não! Antes passar pela fealdade dos olhares populares mantendo os bons costumes.

Cigarro apagado e ex que aparece um enfatado tipo pactuante da crise lançando em redor a prepotência do costumeiro olhar para com subordinados. Pereceu-me uma tentativa de camuflar a porrada levada pela mulher já que não tinha cara de conseguir o contrario. Qualquer esgrimir de olhares com ele levava-o ao tapete antes do combate iniciar.

De seguida surge um outro, de bermudas, papeis na mão - talvez algum ensaio sobre manicómios - e rompante de quem se atrasou para tirar o pai da forca. Chega à porta, como se a cegueira lhe fosse um hábito mais cultivado do que somático e os direitos dele estivessem acima dos da escumalha, abeira-se, sacode-a e bufando percebe estar fechada até para ele. Era  daqueles que nas bichas do super e autocarro consegue dar jus ao crédito dos parvos nestas situações. Porque a maior parte das vezes passam à frente com a mesma cara com que ficam quando o clube deles perde. Sabem o sabido mas fazem por negá-lo empinando o nariz. Há quem diga cara de cu. Uma senhora chega atrás dele e pergunta quem foi o último. Fazendo-se de estranho ao momento ele cala-se mas eu aponto logo o dedo dizendo: - Foi ele. Ah, aquele mereceu. Então isto é assim, vai uma pessoa para ali de véspera e ele ignora-o achando que o mundo é a tasca da Tonecas lá do bairro, que ele nunca pinou mas diz que sim, que os outros são a mãe dele? Se não lhe deu educação desse.

A senhora volta a perguntar o mesmo e ele o mesmo, nem pia, e eu outra vez: - Foi aquele senhor. Afronta-me e agasta-me estupidez e injustiça; o que é que hei-de fazer? E o sujeito, notando-me temerário, dando para a frente dois passos intimidadores, como que perguntando se era com ele a minha implicância – até parece que não sabia ser – fantasiando o meu temor nele pergunta mesmo: Quem, é comigo? – Sim, o senhor foi o último. Ora, ele não sabia do meu feitio biliar e que me cai a costela para a malandrice. Coisas lá do bairro e dos tiros aos ouvidos na infância, que nessas alturas me congelam o semblante e num relance fulminam a distancia que me separa dos palonços deixando-me em guarda, fronha franzida e rosnante que não passa despercebida e só um verdadeiro maluco decidirá afagar com xico-espertice. De facto constatei que ele pretendia mais parecer-se com um híbrido dos dois, pelo jeito no parecê-lo, do que o era de facto. Senão tinha ido mais longe e experimentado o sabor dum isqueiro de Singapura pela goela abaixo. Sossegou o facho mas não aceitou a condição de ser mais um. Menos mal.

Portas abertas. Entramos. Uma senhora lutando entre o nutrir piedade e o desferir poder conferido pelo ordenar carneiros à porta do matadouro faz cumprir as regras escrupulosas da casa. Não só me espantou tal facto em Portugal como me levou à desconfiança. É que por cá a pontualidade não bomba mesmo. É coisa de otário. Se a folha diz meia hora antes é pois meia hora antes. Portanto os que chegam antes que desamparem a loja. E lá vou eu para mais um cigarro iniciado ao som da marcha singapurense arrepiando-me os tímpanos, mas à porta do carro da Ana, que sei de experiência vivida que ela, neste assunto tem um pacto com a ASAE e, cigarros, no japonês dela, nem que estivesse à porta da maternidade na tenção de ver aparecer um Cardosinho.

Mas o melhor foi quando já dentro do carro, aproveitando a espera para descansar antes de chegar o cansaço, estou eu de olhos fechados quando sinto um solavanco abalar-me o sossego. Desperto, olho para trás e deparo-me com uma Mercedes branca a recuar de fininho. Saio e constato que o meliante ao volante; culpadíssimo da crise, gordo, pançudo, seboso e urticante, nababo em decadência e sonso, aliás tão escorregadio que se as enguias fosse rubicundas eram assim; se prepara para sair impune às provas do crime. Dou uma rápida espreitadela ao agora já meu pára-choques, não vejo nada, fito o tipo mas o empertigado avança imediatamente com um “não tocou”. Aí é que dou graças ao previdente descanso que me furtou. A querer fazer-me desconfiar das minhas certezas. Ora agora! Não me refreei. Lanço-lhe uma descasca de compassiva moral e a praguejar torno às benesses da espera.

Regresso pontualmente junto à máquina das senhas. Desta vez já não é a senhora das ovelhas mas um senhor tão velho e encarquilhado que para se suster se apoia num sorriso tão piedoso e compincha que chego a sentir inveja. Este tipo de pessoas aguenta-se por aguentar a dor alheia. Deviam existir mais pessoas assim.

O preço da consulta não é o esperado e também aí ganho o dia, não fosse o funcionário do atendimento prestar mais atenção a alimentar a conversa da vizinha ao lado do que aos utentes. O costume. Ocorre-me o Santana Lopes e que aquela gente deve considerar-se acima dos mortais somente por lhes terem dito terem um chefe VIP. É que é comum as pessoas confabularem estatutos por virem a saber que outros sabem, têm ou fazem. Apossam-se do alheio desde que lhes sirva para fugirem do que ou de quem são.

A caminho da sala de consulta confronto-me com o Paços Coelho na televisão e percepciono não estar em espaço augurante de coisa boa. A mais o médico tem o mesmo nome de um ex-ministro pelo que a perspectiva do diagnóstico também me deixa apreensivo e desconfiado.

Enquanto espero; não sei se sabem mas quando se espera num hospital, ao fim de um pouco as cadeiras tornam-nos indiferentes à politica e a única coisa a valorizar passa a ser a possibilidade de ainda haverem cadeiras nesses espaços; as próprias cadeiras que coladas ao rabo nos reclamam permanência e engolem até ao pescoço até ao momento em que ouvimos o nosso nome.  Depois tornamo-nos uma sombra das nossas certezas. Porque o tempo, de dúvidas, enormiza-se.

Falta pouco para a minha vez quando passa uma mãe a mastigar pastilha elástica levando a reboque um filho adolescente na fase do não se atura. Ela lança-me os faróis e estarreço. Percebo tratar-se de alguém habituada a ser fodida sem reclamar pois o olhar dizia fode-me enquanto a boca sempre a ruminar, desdenhosa, dizia vai-te foder. Os hospitais são férteis em motivos cinematográficos. Há de tudo e perder-me-ia num o suficiente para mais um guião.

Entro e dissipo as minhas dúvidas. Não, não se trata do ex-ministro. Menos mal. Mas menos mal o caraças! É que a mãe do filho previu o veredicto médico: Estás fodido! E agora vamos lá fazer mais exames para ver quão fodido estás.

Despeço-me do Sr. Doutor – é um que chegou de Jaguar e se ele pode dar nas vista com o Jaguar também eu posso fazê-lo com o meu isqueiro -, quase quase sucumbo á tentação de lhe perguntar se é irmão do ex-ministro mas previdentemente sou iluminado pela precaução: Melhor não perguntar não vá também ele ter ressentimentos com o poder governativo.

Saio no meu passo novo e claudicante. Sempre tive a impressão de que um claudicar como o meu, por revelar termo-nos permitido à aventura e a viver além das encomendas do dia a dia, nos empresta um certo charme, principalmente se for acompanhado por uma bengala de castão de prata. 

Chego ao carro e, porra!, está bloqueado por outro. Suspiro e cedo à tentação dum impropério. Desabafo com a chave e chega a dona do emplastro. Simpática e cheia de desmesuradas desculpas. Sorrio, perdoo, nada a fazer. E regresso a casa.

E ainda me perguntam o porquê de acordar aos gritos a meio da noite? Pelo menos eu claudico e vocês não. Se claudicassem já não perguntavam.

PBC

terça-feira, 22 de maio de 2012

No Pico da Agulha


No Pico da Agulha é uma curta metragem independente, drama que retrata uma possível realidade não tão distante das nossas vidas quanto isso. É antes de mais um filme de actores e um ensaio fotográfico narrado nascido da reflexão do autor acerca do actual panorama do cinema português, na qual a estética propositadamente negra e suja reflecte as dificuldades pelas quais a vontade de fazer ultrapassa e deve ultrapassar as condições e meios para que se possa fazer cinema em Portugal. Porque o amor pelo fazer e o motivo que o preside, como demonstram todos os intervenientes no projecto, se tornou mais forte do que as limitações impostas pelo sistema regente da produção cinematográfica. Porque para se narrar uma história basta havê-la; uma folha, um lápis e uma plateia, por menor que esta possa ser. Que as ideias que dão vida à gesta deverão ser partilhadas.
PBC

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Redenção à frustração?



Entedia-me esse permanente ar carregado, de nuvem cinzenta, pairando sobre a expressão esgar rosnante de quem - leia-se portugueses – engendrando pequenos poderes de bairro parece ter sempre algo a provar, como se a minha fosse sempre maior do que a tua mesmo quando não o é. Digo: Um bem parecer onde só pela negativa parece possível a redenção à frustração de, na maior parte das vezes, o conquistado não ir alem do sofrível. Indubitavelmente o que faz de nós e na essência, verdadeiramente, um país terceiro mundano com pretensões à europeização. E porque não medíocre?  

PBC