segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Finou-se só, numa cave fria, praticamente abandonado à doença.



Volta não volta recordo-me dele mas ultimamente tenho pensado com mais incidência no meu falecido amigo Jorge. Quando me ocorre lembro-me que morreu menos vitima duma co-infecção do que da descriminação e ignorância do facto de que a falta de demonstração de amor também mata, e por vezes mais do que a doença que eventualmente nos atirou para a cama. Chamávamos-lhe Stato ou Stato MIler. Isolado por deformação educacional o Stato era uma daquelas pessoas a quem normalmente se chama de bom rapaz, era um manso, pessoa de princípios, amigo do seu amigo, leal, discreto, e de tal ordem era a sua bonomia que quando alguma coisa acontecida lá no bairro soava a evento escabroso, se disséssemos “vejam lá que até o Stato”, era porque de facto a coisa o era mesmo. Lembro-me do dia em que ao fim duns anos a tratarmo-lo por Stato, sem ninguém estar à espera daquele repente, o que nos espantou por não ser habitual no bom do Jorge, descobrimos que o Stato afinal não se chamava Stato. Há época batíamos umas soecadas a feijões em casa do Tintas, o Henrique pintor, um eleito da pintura artística, doido varrido. Foi numa noite em que após várias horas de soecada, a determinada altura, o Tintas, vendo-me ali a fotografar tudo o que mexia acaba a lançar à malta presente o desafio para uma foto encenada com todos como protagonistas. Adereças dispostos em cima da mesa, guarda roupa improvisado e expressões exageradamente a preceito e lá se fez a foto. Não me lembro com precisão de quem lá estava mais para além do Tintas, do Júnior, do China, do Xuxo, de mim e do Hugo. Penso que o Rui também, mas de facto passados vinte e cinco anos a memoria dissipou-os. A determinada altura, o Xuxo; que se havia pessoa capaz de infernizar o juízo a alguém este era um deles; já não sei porquê, chama Stato ao Jorge e este, num acesso de raiva diz: - Stato uma merda!!! Já estou farto que me chamem Stato!! Statt MIller de Saldanha e Albuquerque, se faz favor! E mais! Se querem saber, corre-me nas veias o sangue dos Reis de Portugal! Fez-se um silêncio solene, o queixo caiu-nos e antes mesmo de sermos invadidos pelo tipo de orgulho dos que acabam a privar com eminências, claro está que o Xuxo aproveitou a deixa para nova leva de azucrinanço ao juízo do Stato que afinal não era Stato mas Statt. Aliás, se me tenho lembrado dele é porque o seu primo Statt, José Carlos Saldanha, para alegria minha tem andado na boca do mundo e aparecido na comunicação social e redes sociais por ter tido a coragem de levantar a voz contra a descriminação e a injustiça, pedindo às instituições que o deixassem viver, e com sucesso se tem feito ouvir. Ao contrário do José Carlos, que estou certo jamais virá a morrer sozinho ou vitima da exclusão o Jorge finou-se só, esquecido por todos numa cave fria, praticamente abandonado à doença, vitima da sua mansidão, da culpa diante dos pais que lha souberam inculcar desde cedo e do não só não ter tido a coragem de se impor perante estes como igualmente por nunca ter tido ninguém a seu lado que o motivasse a querer vencer aquando da chamada à desistência. Porque em verdade, o Stato que afinal se chamava Statt desistiu, silenciou-se porra, não se fez valer do seu legitimo direito a uma assistência digna não só por parte do estado como de todos os outros que lha poderiam conceder. E porque o desamor também mata. E porque o silêncio ceifa tanto mais vidas quanto estas a ele não se souberem impor e, se nos silenciarmos, por vezes, e sempre que se tratar da nossa decisão deixá-la ou não vencer, é provável que a morte chegue antes do tempo.

PBC

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Palavras de desejo


"Não me ocorrem palavras suficientemente esclarecedoras do porquê de te amar. Somente me acode o desejo de entendê-lo nos pormenores do teu corpo, e a vontade de te escrever na pele as que mal consigo dizer."

PBC in " Alma dos amantes" 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Só silencio e olhos o sabiam.


..."Não havia nada a fazer a não ser vivê-la. Nem eles o queriam. Afinal, quando uma paixão assim surge não existem regras definidas nenhumas que possam desafiar a razão a cessá-la nem a possibilidade de se refazer com outra sorte a existência dos apaixonados. Estão-no e pronto. Por isso sufocava-os a distancia e serenava-os estarem à distancia dum simples olhar. Porque a pele se distendia para lhes embalar arrepios e o desejo acertando-lhes o ser com o tempo; sentiam-no como a exactidão do reencontro ansiado durante séculos. Só o silencio e os olhos o sabiam. Talvez fosse essa a única descrição do estarem tão terrivelmente apaixonados. Não havia outra causa além dessa e a do incontrolável apelo dos corpos cedendo à vontade de se terem. À noite, já na cama, almejarem-se era a sua almofada e, ao longo do dia, sentiam constantemente a alma largar o corpo em desenfreada corrida partindo para os braços uma da outra, fundindo-se, de forma que quando experimentavam essa sensação tudo o mais que não fosse um suspiro ou o desejarem-se mais e mais sabia-lhes a incompletude. Doía-lhes a espera e a incerteza do que ambicionavam viesse a precede-la; o único lugar onde já há algum tempo pertenciam. Ao olharem-se, mais do que o recato resguardando a incerteza da correspondência devoravam-se, confirmando-o, dissipando a angustia de se pertencerem sem se desfrutarem"...

PBC in "A alma dos amantes" 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A minha avó René




Nunca a ouvi queixar-se de nada. Confessou-me um dia que ais e uis eram coisa de gente fraca. Nem quando a vida lhe pesava já tanto e o vigor do sorriso esbatendo-se procurou acertar-se com o fim, mesmo aí, a legitimidade para lhes ceder procurou outras bocas. Manteve-os sempre silenciados. O alivio, encontrava-o nas preces, prazeres da mesa e no mais profundo silencio do qual ao sair ganhava alento para mais dias, sempre dignos, e para nos dar a certeza de ser árvore que chegando-lhe a hora haveria de morrer de pé. Assim aconteceu. Cedo iniciou o percurso das percas.  Mãe nunca conheceu, finou-se ao pari-la. Entre outras tantas perdas viu partir dois filhos ainda crianças, marido, amigos, já depois dos setenta uma filha, genros que também foram filhos, largou em total desapego a terra onde nasceu, negócios, propriedades e toda uma existência construída a sacrifícios rumando sem alternativa para a incerteza. Nem ais ou uis se lhe ouviram. Eram coisa de gente fraca, dizia. Lágrimas vertia-as recatadamente com a mesma finura com que as enxugava, sem fitas ou agravos que lhe enlutassem mais a dor. Chamávamos-lhe a Marquesa, por ter a pose, acertividade e o delicado trato duma. Fui o último familiar a vê-la, extinguindo-se no leito de morte. Estava-mos destinados àquela derradeira despedia, eterna. Em vão o procurei pelo habitual mas logo o olhar lhe fugia para junto dos que lhe antecederam a viagem. Aproximei-me dela, fiel, beijei-lhe terna e amorosamente a testa limitando-me a um até já. Soube ser a última vez que sentiria nos lábios a sua pele de bebé. Teve-a sempre assim, macia e sedosa, sem rugas, quase aos noventa. A terra, soube-o então, comê-la-ia mas a eternidade jamais a deixaria ir-se, mantê-la-ia como uma esfinge velando pelos meus ais e uis. Tal como a ela doem-me mais a sair do que abafados. Sangue do mesmo sangue ensinando nascer das dores a edificação da alma e dureza da carne. Assim era a minha avó René, aquela que me legou esta consubstanciada repugnância a quaisquer ais ou uis sem útil justificação. E se para ela poderiam ter tido utilidade. Ou até para mim.

PBC

Continuo resoluto


Incomoda-me saber ter sido naquele momento que o meu coração me impediu de procurar mais. Bastou-me a timidez daquele olhar sem dúvidas para saber que depois dele não encontraria atrás de nenhum arbusto ou rua idêntico desejo nem vontade dum tactear-me a alma que me prendesse assim. E só por isso continuo resoluto em deixar de me sentir constrangido se entretanto to devolver à pele.

PBC
 

sábado, 12 de julho de 2014

Só mesmo o paizinho

Não é metáfora. Leia-se literalmente: A minha filha passa o tempo todo pendurada aos meus calções em desequilíbrio não me permitindo mover desafogadamente de um lado para o outro sem medo de a ver quebrar os queixos. Por este andar qualquer cabelo que me reste não ficará por cá muito mais. Vale-me é a fé de que nestes amanhos fique abundantemente saciada do ser incómodo e cansativo penduricalho e, futuramente, já não venha a necessitar sê-lo colada aos calções de algum biltre que a escoiceie pelo facto. Se assim se mantiver, por mais que encha o ego aos sorteados ninguém aguentará. Só mesmo o paizinho.

PBC